Marcio Pochmann

Marcio Pochmann diz que Brasil
tem dinheiro, mas falta prioridade

"Existe dinheiro para fazermos a reforma agrária, para construirmos escolas, para contratarmos professores, mas não existem prioridades definidas. Não investiram os R$ 106 milhões necessários à reforma agrária, mas gastamos R$ 160 bilhões com o serviço da dívida em 2005". A afirmação é do economista Marcio Pochmann , na palestra que proferiu dia 14 de setembro no VI Conse (Congresso Nacional dos Engenheiros), em São Paulo.

Pochmann , professor livre-docente e pesquisador do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), ex-secretário de Relações de Trabalho da prefeitura de São Paulo, apontou a contradição entre o pífio crescimento de 2,6% do PIB (Produto Interno Bruto) - que, entre suas conseqüências, deixa 6 milhões de jovens sem qualquer conexão com o trabalho - e o fato de ser o Brasil um país ainda por construir. "Não temos porto. Não temos estrutura. Não temos escola para cinco milhões de jovens."

Silêncio dos cemitérios

"Somos um carro que anda com freio de mão puxado. Queremos crescer, mas não deixam", continuou. "Organizaram um consenso que é falso. Não existe dicotomia entre desenvolvimento e inflação. Isso não é uma questão técnica, mas política", criticou. Para Pochmann , a situação gera "o silêncio dos cemitérios; existe silêncio, mas não vida".

Márcio Pochmann chamou a atenção do público para o que ele definiu como a atual "revolução civilizacional ". "Estamos vivendo um momento singular de nossa história que se dá pelas mudanças de base técnica no mundo do trabalho".

Ele lembrou que na passagem do século XIX para o XX, a expectativa de vida da sociedade agrícola era de até 40 anos. Hoje, a perspectiva é que as pessoas atinjam a média de vida de 110 a 120 anos. Segundo ele, essa mudança precisa ser levada em conta e ser utilizada para alterar paradigmas e melhorar a qualidade de vida das pessoas. " Qual a razão de um jovem hoje ingressar no mercado de trabalho antes dos 25 anos de idade ou de continuarmos com jornadas de trabalho tão extensas?", indagou.

Pochmann diz que os atuais ganhos de produtividade permitiriam semana de trabalho de quatro dias e jornada diária de quatro horas. Prevendo a perplexidade diante da afirmação, Pochmann lembrou que também causava espanto propor jornada de 16 horas diárias sem usar o trabalho infantil na sociedade agrícola em 1850.

O economista alertou também para transformação na natureza do trabalho que atualmente pode ser "imaterial": "Estamos plugados em Internet, somos achados pelo telefone celular e outras ferramentas de comunicação que acabam fazendo com que levemos o trabalho para todos os lugares. Antes o operário entrava na fábrica às 7 horas, tinha suas dificuldades, mas batia o ponto, ia para a casa e deixava os problemas na empresa".