Cuiabá

Mato Grosso debateu
os paradoxos da Agricultura

A sociedade brasileira como um todo tem se beneficiado do desempenho que a agricultura apresenta desde a década de 1990. A produtividade cresceu, as reduções de custo de produção são repassadas ao consumidor e, com isso, o poder aquisitivo das camadas mais pobres da população vem aumentando significativamente. Ao mesmo tempo, o setor vem gerando substanciais superávits comerciais, que permitiram a solvência do País durante as turbulências de sucessivas crises internacionais e têm propiciado inéditas reduções da dívida externa brasileira. Mas, apesar disso, o agronegócio é vítima de crises cíclicas que demandam injeções de novos recursos e renegociação das dívidas em vencimento - ou seja, configura-se o caso de um setor sem sustentabilidade econômica.

"Para solucionar esse paradoxo da agricultura brasileira é preciso estabelecer e atingir metas de ampliação do consumo interno e de conquistas de novos mercados", diz Geraldo Sant'Ana de Camargo Barros, uma das maiores autoridades brasileiras sobre o tema. Ele é professor titular de Macroeconomia e Agronegócio da ESALQ/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo) e coordenador científico do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-USP), um grupo de pesquisa cuja finalidade é estabelecer conexões entre a universidade e o setor do agronegócio.

Camargo Barros apresentou em Cuiabá, no último dia 24 de julho, a nota técnica sobre o assunto, durante a etapa matogrossense do projeto "Cresce Brasil". O evento, coordenado pelo Sindicato dos Engenheiros do Mato Grosso, aconteceu no auditório da SFA/MT - Superintendência Federal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Mato Grosso.

Em sua palestra, o professor salientou que a análise da agricultura brasileira comporta diagnóstico em dois níveis: macroeconômico e setorial.

Segundo ele, do ponto de vista macroeconômico, o setor está submetido a duas dificuldades: a) o mercado interno evolui muito lentamente para que absorva a produção crescente do agronegócio sem quedas acentuadas de preço; b) o mercado externo tem sido em geral favorável - garantindo rentabilidade temporária - mas os saldos comerciais, após algum tempo, tendem a valorizar demasiadamente a moeda nacional, com conseqüente rebaixamento de preços internos.

Enfim, o agronegócio flutua ao sabor dos ciclos internos e externos, alternando momentos de euforia e de depressão. Para superar essa dificuldade, Camargo Barros propõe, em suplementação ao crédito do setor público, a criação de um sistema de poupança que incentive a canalização de recursos tanto horizontalmente (entre setores que momentaneamente estejam superavitários e deficitários) e entre ciclos de alta e baixa. "A idéia é evitar tanto o sobre-investimento na euforia como o sub-investimento na depressão, que agravam a intensidade do ciclos. A sociedade avaliará que incentivos estará disposta a dar a um setor estratégico como o agronegócio, principalmente através de um mecanismo sustentável de seguro rural", assinalou. Ele também sugere a difusão entre os agentes do agronegócio da utilização de contratos a termo - que assegurem adequada distribuição dos ganhos e perdas do setor - e contratos futuros que permitam um gerenciamento mais eficaz dos riscos de mercado.

Em termos setoriais, segundo Camargo Barros, a prioridade é fortalecer os investimentos em ciência e tecnologia agropecuária, de forma a retomar o padrão de crescimento de produtividade que ocorria até o início dos anos 2000. É indispensável avançar sem mais demora na recuperação e ampliação da infraestrutura logística - incluindo armazenamento, transporte rodoviário, hidroviário e ferroviário. Não pode mais ser retardada uma aceleração nas negociações internacionais, em todos os níveis: através da OMC, da formação de blocos de integração como a ALCA, com a União Européia e, na falta delas e/ou em complementação, negociações bilaterais que evitem as perdas de mercado que o País vem sofrendo. Urge estabelecer um programa sanitário e de qualidade de produtos que assegure tanto o acesso ao mercado externo como a saúde e bem estar da população brasileira. Com a mesma urgência é necessário implantar um programa eficaz para a área ambiental, cuidando da água, das florestas, do homem do campo e do consumidor. Para tudo são necessários recursos para investimento. Esses recursos não estão disponíveis no setor público por razões por demais conhecidas: carga tributária excessiva e gastos mal aplicados. Será necessário atrair a parceria de investidores do setor não-agrícola e do exterior. Esses recursos virão se os riscos desses investimentos - inclusive a segurança jurídica - não forem exagerados e se ficar claro que o País possui uma estratégia que garanta a sustentabilidade de seu agronegócio.

Que oportunidade estão abertas para o agronegócio brasileiro? É preciso estabelecer metas de ampliação do consumo interno e de conquistas de novos mercados. Cuidando da qualidade e da sanidade de nossas carnes de forma a abrir acesso em mercados de maior renda, ampliando o comércio de formas mais elaboradas de café, melhorando a infraestrutura de comercialização de nossos grãos, aproveitando a grande vantagem comparativa do Brasil no campo da agroenergia.

Em termos de cadeias produtivas, fica o desafio de compatibilizar os benefícios da concentração agroindustrial a jusante e a montante da agropecuária - necessária para a competitividade global e para os investimentos em qualidade para acesso a mercados e benefício do consumidor - com a partilha dos ganhos com os produtores espalhados atomizadamente por todo o território nacional. É preciso efetivamente disseminar o conceito de cadeia produtiva, constituída de elos com diferentes graus de resistência. De que forma aprender com as experiências recentes que comprovaram uma vez mais que a cadeia toda é prejudicada quando o elo mais fraco se rompe? Em especial preocupa a exclusão do pequeno agricultor, sem capital financeiro e humano para acompanhar a evolução tecnológica do agronegócio em escala mundial.

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